cheguei a A vida das plantas através da obra da teresa huertas. vi o livro em casa dela, todo anotado, usado, sublinhado a lápis. contou-me que o tinha acompanhado no seu último trabalho e disse que mo podia emprestar. foi assim que o livro veio comigo — já habitado pela leitura dela. ler este texto com as marcas da teresa é uma forma particular de estar na sua biblioteca, de continuar uma conversa silenciosa através das margens, dos sublinhados, das pausas. não é apenas um empréstimo de um livro, é um empréstimo de um tempo de leitura, de uma atenção já exercida.
este gesto faz eco de um diálogo mais antigo. em 2021, colaborámos no livro coletivo Liquid Memories ~ to read with water, onde a teresa contribuiu com Suspended Waters. Fluid Landscapes: um trabalho que acompanha a mutação da paisagem islandesa através do vapor, da suspensão e da transformação contínua da matéria visível. ali, a água já não aparecia como forma estável, mas como atmosfera, como estado intermédio, como força de apagamento e recomposição do mundo. essa atenção ao que se mistura, ao que se transforma lentamente, regressa agora — não apenas nas imagens da teresa, mas também na forma como este livro chega até mim.
ótimo livro para o momento em que estou — e sim, o argumento do emanuele coccia é denso porque ele não está a acrescentar uma teoria: está a virar o mundo ao contrário.
vou desmontar o núcleo de A vida das plantas: uma metafísica da mistura com calma, sem simplificar demais, mas tentando torná-lo habitável para mim.
o ponto de partida
A vida das plantas não é um livro sobre plantas.
é um livro que usa as plantas para redefinir o que é vida, corpo, mundo e relação.
o argumento central que retiro é este:
as plantas mostram que viver não é ocupar um lugar no mundo, mas misturar-se com ele.
isto é o que coccia chama de metafísica da mistura.
1. o mundo não é um cenário — é um meio partilhado
na tradição ocidental, o mundo surge como palco, os seres como entidades separadas e o corpo como fronteira.
para coccia, as plantas tornam tudo isto insustentável.
porquê?
porque as plantas não se movem para encontrar o mundo: transformam o mundo em si mesmas.
respiração, fotossíntese, crescimento — tudo isto é:
o mundo a entrar no corpo
e o corpo a sair para o mundo
não existe um dentro/fora estável.
a vida acontece nesse vaivém permanente, nessa exposição recíproca.
2. as plantas inventam a atmosfera
um dos argumentos mais fortes do livro é este:
a atmosfera é um órgão vegetal.
isto não é metáfora.
as plantas:
produzem oxigénio;
regulam a composição do ar;
tornam a respiração possível para todos os outros seres.
ou seja:
o ar não é neutro;
é um artefacto vivo, produzido continuamente.
viver passa então a ser:
respirar algo que outros fabricaram.
esta ideia desmonta por completo a noção de autonomia biológica.
a paisagem deixa de se oferecer como forma e passa a existir como estado, como condição partilhada.
3. mistura ≠ fusão total
mistura, para coccia, não é dissolução da identidade.
é outra coisa:
os seres existem na medida em que se misturam;
a identidade não vem da separação, mas da forma específica de misturar.
uma planta não é “menos indivíduo” por se misturar com o mundo;
é indivíduo precisamente porque o faz de um modo singular.
este ponto é decisivo para evitar leituras românticas ou difusas da ideia de mistura.
4. a vida como técnica de exposição
há uma ideia subtil que me ficou muito presente ao longo da leitura:
viver é expor-se.
as plantas
estão permanentemente expostas à luz, ao ar, à água, ao toque.
não existe nelas um interior protegido.
daqui retiro algo muito forte:
todo o corpo é superfície; toda a vida é relação.
ao ler coccia, volto ao trabalho recente da teresa huertas, em particular à instalação STUDIOLO. ali, o espaço organiza-se como um arquivo poroso, sem fronteiras rígidas, onde objetos, imagens, livros, elementos naturais e processos em curso coexistem sem hierarquia fixa. mais do que um lugar de exposição, o studiolo funciona como um espaço de convivência — um sistema de circulação e contágio, regido pela fluidez e pela atenção.
isto liga-se diretamente à forma como penso:
a imagem como evento,
o corpo como meio
e a prática artística como prática situada.
5. porque isto é uma metafísica
coccia não está a falar apenas de plantas ou de ambiente.
ele está a propor:
uma nova ontologia, ao redefinir o que significa ser;
uma nova epistemologia, ao deslocar a forma como conhecemos;
uma política implícita, ao reformular as condições de coexistência.
se o mundo é mistura:
não há soberania absoluta;
não há exterior puro;
não há sujeito isolado.
há coabitação contínua.
6. como isto dialoga com o meu trabalho
aqui a ligação é direta. não precisa de ser forçada.
o que coccia propõe ressoa profundamente com
os herbários especulativos — não como sistemas de classificação, mas como formas de convivência;
a imagem entendida como processo e não como representação;
a publicação pensada como meio e não como recipiente;
o arquivo assumido como prática de cuidado e não de domínio.
quando trabalho com
cianotipias,
plantas e fotos recolhidas,
tecidos,
água,
erro e contingência,
estou a operar exatamente neste regime:
não representar o mundo, mas deixar o mundo passar pela obra.
isto é coccia em prática.
7. uma frase-síntese que guardo comigo
se tivesse de resumir este livro numa frase que me acompanhe:
viver é deixar-se atravessar.
não por fragilidade, mas por condição ontológica.
referências
emanuele coccia. a vida das plantas: uma metafísica da mistura.
lisboa: sistema solar (chancela documenta 2019), edição portuguesa. [ + ]
liquid memories ~ to read with water.
msdm publications, 2022. [ + ]
teresa huertas. suspended waters. fluid landscapes.
contribuição para liquid memories ~ to read with water, 2021. [ + ]
teresa huertas. studiolo.
gabinete curiosidades karnart, lisboa, 2025.












