a visita da fabiana bruno à casa-estúdio msdm
quando duas paisagens se encontram

acordo com a sensação de que a mesa do estúdio ainda respira. na tarde anterior, tinha recebido a visita da antropóloga fabiana bruno, com quem colaborei no colóquio arquivos, diásporas e pertencimentos: desafios da pesquisa com fotografia na antropologia, organizado pelo LISA-USP. nesse encontro online, as nossas conversas giravam em torno de arquivos órfãos, diásporas de imagens e modos de habitar o passado através da fotografia. ontem, essa mesma conversa continuou, mas agora arrumada no território da minha casa-estúdio em lisboa.
a fabiana não chegou apenas como investigadora — chegou também como editora. além da sua actividade académica, ela é uma das forças que sustentam a Fotô Editorial, editora fundada em parceria com eder chiodetto e elaine pessoa, dedicada à produção de livros de fotografia autoral e pensamento crítico sobre imagem contemporânea. essa dupla presença dela — antropóloga e editora — abriu uma dobra surpreendente no modo como o espaço se reorganizou à sua volta.

tinha preparado uma mesa com materiais da found photo foundation, caixas semi-abertas, provas impressas, vestígios de projectos antigos e recentes. são objectos que transportam estórias, deslocações, e as camadas de trabalho que se acumulam com o tempo. a fabiana olhou tudo com aquela atenção concentrada que reconheço do colóquio: há quem veja imagens, e há quem veja relações. ela vê relações.
mas o momento que reconfigurou o encontro foi quando a fabiana retirou do seu saco o livro exploratorius, da artista elaine pessoa, publicado pela Fotô Editorial, e mo entregou. um livro que viajou com ela desde são paulo até lisboa, como se tivesse encontrado o seu próprio caminho para entrar na minha investigação actual. exploratorius questiona os modos como as expedições científicas construíram a paisagem brasileira, usando imagem, texto e IA para desmontar as camadas coloniais que moldam o olhar. reconheci imediatamente a fricção conceptual: arquivo, memória, ficção crítica, IA como ferramenta de desmontagem, a paisagem como construção histórica.
sem que tivéssemos planeado, o livro da elaine funcionou como um espelho para o meu um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno. dois projectos distantes, mas a reconhecerem-se:
– ambos tratam a imagem como campo político;
– ambos usam IA como gesto crítico, não decorativo;
– ambos investigam paisagens marcadas por violência histórica;
– ambos operam entre arquivo, terreno e fabulação;
– ambos interrogam como as máquinas — ópticas ou algorítmicas — escrevem a história.
no caso da elaine, a paisagem brasileira, atravessada por ciência colonial; no meu caso, o território pós-industrial de campanhã, onde ruínas, plantas e infraestruturas falam de outras formas de desaparecimento e regeneração.
a presença da fabiana no estúdio tornou-se, assim, uma coreografia editorial: uma antropóloga que trabalha com arquivos dispersos; uma editora que publica investigações críticas da imagem; e uma artista cujo estúdio funciona como laboratório de ruínas, plantas e tecnologias. tudo isto se articulou sobre a mesa — um ponto de encontro onde projectos que nasceram em geografias diferentes se reconheceram por afinidade.
no fim, percebi que aquilo que aconteceu não foi apenas uma visita: foi uma constelação. uma forma de perceber que os livros viajam como pessoas, e que as pessoas viajam como livros — trazendo ecos, ligações inesperadas e novas direções para o trabalho.
este momento discreto abriu um corredor inesperado entre os dois projectos — um convite a olhar, lado a lado, as genealogias, as feridas e as tecnologias que atravessam exploratorius e um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno.
paralelismos conceptuais entre exploratorius e um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno
quando a fabiana me entregou o livro exploratorius, o peso do objecto ativou algo imediato — não apenas o reconhecimento de uma relação visual, mas a abertura de um território conceptual comum. dois livros que nascem em geografias distantes encontram, no entanto, um mesmo tipo de fissura na paisagem. uma fissura que pede para ser lida devagar.

no livro da elaine pessoa, essa fissura surge na história das expedições científicas ao brasil — spix, martius e tantos outros — que colonizaram o olhar sobre o território sob o pretexto da observação naturalista. a paisagem é apresentada como descoberta, mas é, na verdade, construída; é apresentada como origem, mas é consequência de violências anteriores. elaine trabalha estes arquivos com técnicas contemporâneas, incluindo IA, não para ilustrar o passado mas para friccioná-lo — desfazer a naturalidade da paisagem e expor o seu fabrico colonial.

no meu um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno, a fissura aparece noutro continente e noutra história, mas mira a mesma operação: a forma como a paisagem é moldada por infraestruturas de poder. o território pós-industrial de campanhã não foi produzido por expedições coloniais, mas por forças industriais, extractivas, urbanísticas, capitalistas que deixaram marcas profundas no solo. as ruínas das fábricas, os terrenos suspensos, a vegetação espontânea que reaparece — tudo isto são camadas de um passado económico que persiste no presente.
em ambos os projectos, a paisagem é menos um cenário e mais um arquivo vivo, onde:
– plantas, troncos, raízes e detritos guardam memórias;
– máquinas (ópticas, químicas, digitais) intervêm no modo como vemos;
– a história aparece como aquilo que resiste, não como aquilo que foi concluído.
arquivos como matéria instável
em exploratorius, o arquivo colonial é manipulado, desmontado, interrogado. as imagens históricas tornam-se matéria maleável, sobrepostas a paisagens contemporâneas para mostrar que a história não passa — assenta.
em um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno, o meu arquivo é outro: plantas recolhidas, cianotipias, fitogramas, bioimagens produzidas com IA. também aqui o arquivo é instável: ele cresce, expande-se, mistura vestígios materiais com processos tecnológicos.
o que une ambos é a recusa em aceitar o arquivo como objecto fixo. os dois livros tratam-no como processo, onde cada camada traz novas implicações políticas.
IA como ferramenta crítica
é aqui que a aproximação se torna ainda mais clara: tanto eu como a elaine usamos IA não como mera estética, mas como meio para:
– reabrir narrativas históricas;
– questionar regimes de visualidade;
– expor estruturas de poder inscrevidas na paisagem.
em exploratorius, a IA amplifica o estranhamento entre passado e presente.
em um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno, a IA funciona como continuação espiritual das máquinas têxteis que impulsionaram a industrialização de campanhã — uma genealogia que vai do tear jacquard à computação contemporânea.
nos dois casos, a IA serve como detector de tensões: ela expõe aquilo que a fotografia analógica, por si só, não revela.

paisagens feridas, paisagens vivas
um outro paralelismo forte é esta noção de paisagem ferida que, paradoxalmente, está viva.
no brasil, é a ferida colonial;
no porto, é a ferida pós-industrial, imobiliária e ecológica.
mas a vida ressurge:
– em exploratorius, através da leitura crítica do território;
– em um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno, através das plantas espontâneas que reclamam o espaço abandonado.
as duas investigações recusam a ideia de ruína como morte: tratam-na como transição, como estado poroso onde ecologias e histórias entram em fricção.
corpos, territórios e genealogias
há ainda um paralelismo mais subtil, mas decisivo: ambos os projectos interrogam quem tem o direito de narrar a paisagem.
no caso da elaine, a pergunta confronta o legado europeu sobre o território brasileiro.
no meu caso, interrogo a cidade que me recebe, os vestígios industriais, as presenças vegetais e humanas que continuam ali apesar da pressão imobiliária.
são dois livros que partem de corpos situados — dois pontos de vista que se aproximam pela atenção ao detalhe, ao erro, ao vestígio.

há ainda um paralelismo que atravessa os dois livros de forma subterrânea: a atenção às estruturas coloniais do olhar. se exploratorius desmonta a paisagem brasileira enquanto fabricação colonial, em um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno procuro compreender campanhã e serralves a partir de uma crítica semelhante, inspirada pelo ensaio “the politics of collecting — race & the aestheticization of property”, de eunsong kim, e pela formulação de cheryl harris sobre a branquitude como propriedade. no livro, um dos meus diálogos em fluxo explora precisamente esta ideia: a forma como a estética da vacância — o gesto de declarar um território vazio para legitimar a sua apropriação — ressoa tanto com a colonização de terras não brancas quanto com a transformação das fábricas de campanhã em ruínas “disponíveis” para o mercado imobiliário. tal como harris demonstra no contexto colonial, também aqui a vacância é fabricada; também aqui a abstração retira história, trabalho e vida aos lugares para reinscrevê-los como propriedade. neste sentido, as ruínas industriais do porto funcionam como arquivos materiais dessa lógica — fixando nas suas fissuras tanto a violência económica como as formas de resistência que persistem. é nesta dobra que os dois livros se tocam: ambos desconstroem a naturalidade da paisagem e expõem os regimes de poder que a moldam.
talvez seja isto que um encontro faz: desloca ligeiramente o eixo do mundo. uma antropóloga atravessa oceanos com um livro na mochila, uma artista abre caixas de arquivos por arrumar, e de repente duas paisagens — o brasil e campanhã — começam a escutar-se na mesma frequência. não é preciso que coincidam: basta que vibrem.
no estúdio, a mesa tornou-se margem de rio. sobre ela, livros, plantas, ruínas, imagens e tecnologias desenharam uma cartografia de estórias que não se deixam silenciar. percebo que ambos os projectos — exploratorius e um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno — procuram o mesmo gesto: devolver corpo às paisagens que foram declaradas vazias, reinscrever vida onde o poder quis ausência.
há algo de profundamente terno neste acto de ler ruínas: é aceitar que a matéria também se lembra. que cada raiz, cada página, cada fragmento de arquivo devolve um murmúrio sobre quem ali passou, trabalhou, resistiu, desapareceu, voltou.
é por isso que escrevo — para acompanhar esses murmúrios.
e porque, ao longo do tempo, aprendi que há livros que não se encontram — reconhecem-se.
links para aquisição dos livros
onde encontrar um olho verde o outro azul: herbário do antropoceno de paula roush
• livraria stet (lisboa)
https://stet-livros-fotografias.com/
• livraria greta (lisboa)
https://www.gretalivraria.com/
• loja online msdm publications
onde encontrar exploratorius de elaine pessoa
• fotô editorial (brasil, vendas internacionais)
https://fotoeditorial.com/produto/exploratorius/
bios
fabiana bruno
antropóloga visual, pesquisadora do lisa-usp e cofundadora da fotô editorial, onde desenvolve projectos de edição crítica dedicados à fotografia autoral e à reflexão sobre imagem contemporânea. a sua investigação atravessa arquivos órfãos, genealogias da imagem e práticas de reinscrição visual em contextos pós-coloniais.
elaine pessoa
artista visual e editora. o seu trabalho investiga a construção histórica da paisagem brasileira através de camadas de arquivo, ficção e tecnologias algorítmicas. cofundadora da fotô editorial, publicou exploratorius, onde confronta os regimes coloniais de visualidade e as suas reverberações no presente.
paula roush
artista, investigadora e fundadora da msdm — mobile strategies of display & mediation. a sua prática cruza fotografia, edição experimental e ecologias visuais, com especial foco nas relações entre ruína, planta, arquivo e tecnologias de imagem. desenvolve projectos de publicação e instalação que operam como cartografias críticas do território.



